MPSI Entrevista: Gabriel Zander

Publicado: Danilo Soares

Publicado em 20/09/2016

Talvez você não conheça muitas bandas de rock nacional por não achar que o som daqui tem qualidade. Mas a despeito dessa ideia, temos alguns achados extraordinariamente hábeis, principalmente na cena underground. Houve uma vez, nos famigerados anos 2000, que esta cena chegou a alcançar o rádio e TV, mas hoje tem voltado aos shows em pistas de skate e casas menores. Nesse universo quase que paralelo ao que é a música mainstream de hoje, algumas pessoas e bandas se destacam, e um desses casos é o do Gabriel Zander, que pode ser considerado um dos mais talentosos nome da cena independente nacional, por trás de grandes projetos como Noção de Nada e Deluxe Trio. Confira um pouco do nosso bate-papo com ele, pra conhecer melhor essse grande nome da música brasileira!


MPSI: Ser produtor influencia decisivamente na forma em que você faz música, ou são coisas com as quais você lida em separado?

Bill: Com certeza. Eu já era compositor antes de ser produtor, então o que aconteceu foi o fato da parte de produção interferir positivamente na minha forma de compor e principalmente de pensar na forma e arranjo para cada música. Quando estou produzindo músicas para outras bandas no estúdio o trabalho começa de fato nas composições, bem na raiz das músicas, na estrutura delas, se falta ou sobra alguma parte, se seria legal encurtar a introdução, repetir o refrão, criar uma parte nova, mexer no final, essas coisas muito mais do que definir timbres, captação, mixagem, etc, até chegar na versão final que vai ser lançada para o público. Isso com certeza acontece na minha cabeça quando estou compondo minhas próprias músicas também, já que é inevitável pra mim não pensar em como aquela música vai soar mais pra frente no final de todo o processo.

MPSI: Existe a crença de que o hardcore é um estilo que promove a irmandade entre seus entusiastas, pelo menos na teoria. Você credita suas amizades e companheiros de estrada a essa característica do estilo, ou acha que independente do som executado, as amizades surgiriam da mesma forma?

Bill: Acho que pelo menos pra mim, o punk rock e o Hardcore foram sim o início do meu conhecimento e compreensão do faça você mesmo. De não esperar ajuda e sim de começar a fazer por você mesmo. O lance da carta social (não existia ainda internet, e-mail, celular ou pelo menos não era acessível pra gente quando eu comecei), da comunicação direta, de trocar shows com bandas em cidades diferentes, hospedagem em casa de pessoas e famílias dessas pessoas que a gente nem conhecia, o lance de todo mundo estar fazendo o seu próprio corre, mas querer se juntar e se ajudar pra construir algo maior e mais forte em comum. Muitos dos meus amigos vem sim daí, dessa época, dessa fase. Não que ela não exista mais, mas esse rótulo de hardcore no quesito musical não funciona mais pra mim. Ouço, trabalho, gosto e convivo com vários estilos de música independente e consequentemente pessoas diferentes, mais voltado pro rock em geral sim, mas muito pouco Hardcore. Pra mim o que ficou disso e que reconheço como punk rock e hardcore é a atitude de arregaçar as mangas e fazer contra todas as adversidades e a favor de todas as diversidades. Tinha um zine de um amigo meu que dizia "Faça você mesmo, mesmo que fique uma merda." E pra mim diz tudo. Dito isso, acho que esse espírito se encontra, se não em todos, na maioria dos estilos de bandas e música independente. De onde surgiram a grande maioria das minhas amizades sim.

MPSI: Ainda sobre relacionamentos, você criou ao longo dos anos uma reputação de respeito na cena underground. Como é a sensação de olhar para trás e ver que a história trilhada te colocou no patamar de referência para as bandas e músicos que surgiram depois dos seus trabalhos?

Bill: Isso é realmente bem legal e um dos motivos que me motiva a continuar seguindo em frente com tudo que eu faço. Não digo que é por isso que faço música, porque pra mim isso é uma necessidade pessoal, minha forma de me expressar e botar pra fora todos os meus sentimentos, algo necessário e terapêutico mesmo. Mas estar na estrada, lançar discos, querer ainda estar, participar e fazer parte dessa comunidade é com certeza devido a todo o sangue e suor que eu entreguei durante todos esses anos e percebo sim o reconhecimento, carinho e o respeito que recebo das pessoas em todos os lugares onde eu vou. Isso realmente não tem preço e é o que faz todo o resto valer a pena. Sou muito grato e tenho também muito orgulho das coisas e escolhas que eu fiz na minha carreira de músico independente e de como eu cheguei até aqui.

MPSI: Você já teve muitas bandas, todas com bom reconhecimento na cena, mas foi o Zander que acabou tendo um tempo maior de estrada. 

Bill: Tive algumas bandas sim, a com maior duração e tempo de estrada foi o Noção de Nada, que esteve na ativa por mais de 10 anos. O Zander está completando 7 anos ainda. Espero que a gente chegue muito mais longe.

MPSI: Dessa forma, você enxerga cada banda que formou como diferentes projetos em diferentes épocas da vida, ou vê uma evolução conforme o passar do tempo, como um todo?

Bill: As duas coisas. Cada banda tem sua característica, mas mais por conta dos outros integrantes que fazem ou fizeram parte, que acabam dando a cara da banda em cima das minhas músicas. Minha forma de compor é sempre a mesma e com exceção das bandas em que toquei, mas não era o compositor, vocalista e letrista, todas as outras poderiam ser a mesma banda com as diferenças marcadas pelas épocas vividas e não pelo nome delas.

MPSI: Faz alguns anos que o streaming virou realidade, o que fez a música em geral se tornar algo alugável ao invés de um bem de consumo, como era anteriormente. Como músico, como isso afetou seu trabalho?

Bill: Ainda estou absorvendo e tentando conhecer e entender melhor essa nova realidade. Eu sempre vou gostar mais do lance físico, de pegar na mão o encarte e por o cd, vinil ou fita pra tocar até o final enquanto vou lendo as letras e a ficha técnica pra depois guardar numa estante e bater o olho quando sentir vontade de escutar de novo ou sentir vontade de escutar de novo quando bater o olho na estante. Mas gosto muito também de conhecer coisas pelo youtube e Spotify por exemplo. São ferramentas incríveis para pesquisa e divulgação. A diferença é que dependemos mais da grana dos shows (bilheteria ou cachê) e quase não podemos contar mais com a grana de vendas de cds, o que dificulta muito manter a estrutura de uma banda. Porém acredito ser questão de temo acharmos um novo equilíbrio disso. Acho desafiador e positivo de certa forma.

MPSI: Eu já conhecia o Zander há alguns anos, mas foi quando saiu o clipe de Auto-Falantes que acabei sendo fisgado pelo som de vocês. Já passaram pela experiência de ganhar fãs atualmente com trabalhos mais antigos? Como foi?

Bill: Sim. A gente vai ganhando novos seguidores a cada pequeno ou grande passo. Acho que toda banda que está no corre, trabalhando sério é assim. Teve o clipe que você falou, abertura de shows importantes como Green Day, Nofx e os 2 Dvds do Dead fish, onde fomos lá e demos o nosso recado de sempre e muitas pessoas nos viram pela primeira vez e passaram a acompanhar a banda dali. Tudo isso soma muito. Estar na ativa mostrando sinceridade, entrega, profissionalismo e qualidade sempre vai te render bons frutos e cada vez mais oportunidades de mostrar o seu trabalho e consequentemente conquistar e cativar mais pessoas para passarem a curtir e acompanhar o seu trabalho.

MPSI: Fale um pouco sobre o esperado novo CD! Com relação a projetos paralelos, existe algum sendo planejado?

Bill: O novo Cd saiu no dia 14/09 e se chama "Flamboyant". Ficamos um longo período trabalhando num disco e devido a muitos problemas, entre eles a mudança de 2 integrantes, quando nos vimos de novo na ativa e entrosados decidimos começar tudo do zero e esse disco acabou surgindo de forma muito rápida e natural, o que faz dele especial e urgente e justamente por isso nos agrada muito. Não vejo a hora de tocar as músicas ao vivo! O Malni tem o projeto solo dele paralelo e o Bruno tem uma outra banda chamada Montenegro, que aliás eu tive o prazer de produzir e foi assim que nos conhecemos. Eu e o Jerry trabalhamos com produção, gravação e mixagem de outras bandas. Eu estou trabalhando ativamente no estúdio Costella em São Paulo e lançando a minha própria gravadora independente chamada Flecha Discos com o Cyro da banda Menores Atos, a qual também continuo orgulhosamente produzindo.

 

MPSI: Vi que você começou a produzir com algumas bandas em SP. A mudança é definitiva, ou o Rio ainda é sua casa? Porque?

Bill: Sim. Como disse acima, estou direto no estúdio Costella em São Paulo. Estou morando em São Caetano do Sul e minha mudança para o estado de São Paulo foi definitiva devido à minha esposa, que já estava morando aqui por causa do trabalho dela. Vou ao Rio visitar minha mãe, meu afilhado, o estúdio e rever meus amigos sempre que eu posso, mas infelizmente com cada vez menos frequência devido aos trabalhos que já estão acontecendo por aqui e a banda que está quase toda já em Sp e muito ativa no momento, o que me impossibilita continuar trabalhando e produzindo no estúdio Superfuzz. Mas continuo fazendo mixagens e masterizações à distância para e com o Elton, meu amigo e um dos meus sócios de lá sempre que solicitado.

MPSI: Os fãs do futebol clássico tem sofrido com a geração PlayStation (‪http://trivela.uol.com.br/carta-aberta-torcida-playstation/). Você acredita que esse comportamento também tem acontecido na música? O processo de produzir em uma geração que já cresce conectada muda?

Bill: Desconheço a situação dos fãs de futebol clássico em relação ao Playstation ou qualquer outra coisa. Não sei se posso relacionar com a música. Mas o processo sempre muda de acordo com as novas tecnologias e ferramentas disponíveis ou descartadas.

MPSI: Bolacha ou biscoito?

Bill: Se for recheada é bolacha. Se não é biscoito.

MPSI: Defina sua relação a música independente. 

Bill: Amor, dedicação, perseverança, amigos, carreira, trabalho, agradecimento e sustento.

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