Os Verdadeiros Heróis (uma história de vergonha e orgulho de ser brasileiro)

Publicado: Dimitrios Meimaridis

Publicado em 12/09/2008

Sábado estava assistindo um desses programas de jornalismo esportivo, e eles passaram uma bela matéria sobre as paraolimpíadas, e desde então fiquei pensando no assunto. Pra quem não sabe as paraolimpíadas começaram no último dia 29 de Setembro e seu encerramento acontece no dia 6.

O que aconteceu com todo aquele patriotismo que tínhamos durante as olimpíadas? Não sabe do que estou me referindo?

Que tal o fato de que nenhum canal aberto está transmitindo nenhuma programação das paraolimpíadas AO VIVO? Não são competições também? Não são brasileiros que estão lá?
Ou será que pelo fato de serem atletas com deficiências físicas, não são tão interessantes?
Perde-se a motivação?

Hoje é dia 3 de Setembro (sétimo dia de competições), e o Brasil tem um total de 26 medalhas, sendo 9 de ouro, 7 de prata e 13 de Bronze, estamos na sétima colocação no ranking geral. Para aqueles que não se lembram, o Brasil terminou as olimpíadas na vigésima terceira colocação com 3 de Ouro, 4 de Prata e 8 de Bronze, apesar dos investimentos de 1,2 R$ BILHÃO.
Vendo algumas das competições das paraolimpíadas eu duvido MUITO que o governo brasileiro tenha gasto um décimo com seus atletas paraolímpicos, e mesmo assim eles já ultrapassaram os atletas sem deficiência em conquistas.

Será que eles não merecem um pouco de atenção também? Aposto que se você sair na rua e perguntar quem é “Diego Hypólito”, as pessoas irão responder:“aquele brasileiro que na final da ginástica olímpica caiu de bunda no chão”. Pergunte a elas quem é Antonio Tenório? (Antonio Tenório, é um judoca brasileiro que foi o porta-bandeiras do Brasil na abertura das paraolimpíadas. Tenório ganhou só 3 Medalhas de Ouro (Antes de Pequim).Dentro das próximas horas Tenório disputará sua possível quarta medalha de ouro. Tenório é cego desde a sua infância, quando uma pancada tirou a vista de um dos seus olhos e a outra ele perdeu graças a uma infecção.
Em 2008, Tenório sagrou-se campeão paulista de Judo. (Caso você ache injusta a minha comparação entre Hypólito e Tenório, pense então em João Derly, outro competidor brasileiro que foi “favorito” graças a imprensa brasileira que “torceu” tanto por ele, chegando ao ponto de deificá-lo, em vão. Derly não só ficou sem medalhas, mas sequer disputou bronze, porém mesmo assim, foi recebido como herói quando retornou ao Brasil.
Será que Tenório receberá o mesmo tratamento? Três de ouro pelo menos ele já tem na bagagem.)

Quero deixar claro que não tenho nada contra esses atletas, Derly, Hypólito, seleção masculina de vôlei, entre outros que acabaram sendo rotulados como “vexames da delegação brasileira de Londres de 2012”. Acompanhei boa parte das competições, estava lá, torcendo por eles, desses todos Derly era provavelmente o que eu mais queria ver no topo do pódio, até mesmo pelo fato dele ter vencido o Pan 2007.
Nossos atletas foram simplesmente superados, isso acontece.

Mas, preciso admitir, o que realmente me enoja é ver esse contraste, a distância que existe de tratamento entre os atletas olímpicos e os paraolímpicos. E não me refiro somente ao aspecto financeiro. Afinal de contas há áreas onde o próprio investimento olímpico brasileiro é minúsculo, mesmo na área de esportes é assim em geral.
Já que quando nos referimos a algum esporte nacional, geralmente é o futebol, quando muito, basquete ou vôlei.

Eu lembro que durante às olimpíadas, acessava portais brasileiros e logo na capa já tinha em destaque, o quadro de medalhas, principais acontecimentos do dia entre outras coisas ligadas as olimpíadas, então eu pergunto, por que é que o mesmo não está sendo feito com as paraolimpíadas?
E o pior, justo agora que o Brasil está até indo bem, pelo menos o desempenho já é melhor que o olímpico. Segundo alguns jornalistas, se não houvesse a mudança de classificação de Clodoaldo (nadador), poderíamos estar na quarta posição do ranking geral.

Infelizmente, no Brasil, deficientes físicos são vistos como motivo de piada e chacota. Querem um exemplo? O motivo pelo qual estou escrevendo esse texto,HTTP://kibeloco.com.br, aparentemente o dono do site, Antonio Tabet, acha engraçado tirar sarro de pessoas debilitadas, nada contra o próprio Tabet, isso vindo de um cara que acompanha o site dele há pelo menos uns 4 anos. Havia até adquirido um certo respeito pelo seu trabalho. (“Havia” é a palavra chave nessa última frase)


Não é a primeira vez que ele resolve zoar com deficientes. Se não me engano durante o PARAPAN do ano passado ele fez uma dessas piadinhas, acho que ele me pegou num dia de bom humor, por isso esse texto não saiu antes.

Não sei se estou ficando careta demais, mas eu não achei a mínima graça em nenhuma dessas coisas, e comentando com alguns amigos meus, nem eles. Encarei isso como uma brincadeira de mal gosto (a palavra piada não passa nem perto disso, só em relação a quem publica esse tipo de coisa), tipo de coisa que nem crianças do primário fazem. A atitude de Tabet ao publicar isso, deve ser comparada a um sujeito que ao ver um deficiente físico, olha, aponta e começa a rir.

Pra mim, qualquer atleta que disputa as paraolimpíadas merece respeito e atenção, e ganhando ou não a medalha de ouro, são todos vencedores, superaram suas deficiências, praticaram esportes, e mostraram ao mundo (ou pelo menos a parte que conseguiu ver alguma coisa), que nada é impossível quando há determinação e força de vontade.

César Cielo, Maurren Maggi e a equipe de Volei Feminina do Brasil (os outros medalhistas também) que me desculpem, mas estes atletas (e não me refiro somente aos da delegação paraolímpica brasileira, mas a todos os atletas de todos os países que estão lá em Pequim nesse momento) são os verdadeiros heróis.

Sinto orgulho por cada brasileiro que está lá representado o Brasil, ainda mais sabendo de todas as dificuldades que enfrentam nesse país, seja ela financeira, ou simplesmente pela péssima qualidade de vida que todo deficiente tem nesse país, seja pela falta de infra-estrutura, ou pela mentalidade de alguns que resolvem tirar sarro ao contrário de ajudar.
Sinto vergonha por esta nação que menospreza seus atletas dessa forma, colocando-os em segundo plano, quando no mínimo eles merecem nada menos do que a mesma atenção que demos aos outros atletas há 1 mês atrás.

E esse é o país que espera receber as olimpíadas de 2016?

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