Dream Theater é uma banda conhecida pelo seu virtuosismo musical e pelos membros considerados como melhores músicos do mundo com relação aos seus respectivos instrumentos. Porém sempre reparei que meus amigos gostavam pouco da banda, talvez porque eles fazem um som sem firula e desenvolvido até demais nos quesitos técnica e tempo, por exemplo. 
 
Porém, ouvindo o penúltimo CD deles essa semana percebi, entre outras coisas, que aquele pode ser muito bem um álbum de iniciação de quem gosta de músicas mais populares em algo mais avançado, tecnicamente falando. Geralmente quem gosta mais dessa banda são músicos e entusiastas, porém espero que esse texto possa conquistar a atenção de você, leitor, que não é acostumado a esse tipo de som, como eu já fui um dia. Pra dizer bem a verdade, DT é uma das pouquíssimas bandas de sonoridade progressiva que me agradam, e tentarei explicar o porque no track-by-track.
 

1. On the Backs of Angels. Uma das melhores coisas que existe é quando um CD começa em alto nível. Lembro bem quando comprei o álbum mais pesado do Oficina G3 e ouvi pela primeira vez em casa. Nem podia acreditar no que estava ouvindo. Nesse caso o Dream Theater optou por fazer uma introdução com cara de unplugged até a entrada de um solo eletrônico, feito pelo tecladista da banda. Passados sessenta segundos de uma bela introdução (sim, as músicas deles são deveras longas) vemos a entrada de todos os elementos. É difícil explicar o efeito que o som deles produz porque são técnicas muito trabalhadas e bem definidas, diferente do que estamos acostumados a ouvir. Sendo assim meus comentários ficam limitados aos nuances do som e seus diferenciais. Essa música, por exemplo, consegue ter uma sonoridade popular e pesada ao mesmo tempo, coisa que credito ao momento em que a banda lançou este álbum. Eles haviam "perdido" o membro fundador Mike Portnoy, considerado por muitos o melhor baterista do mundo. Sendo assim a banda precisava extrair o melhor que pudesse para que o CD fosse um marco em sua história, e creio que chegaram nisso. O conjunto da obra mostra um álbum pesado, extremamente técnico, mas sem excentricidades, desesperos ou sobras. É como se tudo se encaixasse magicamente, devido ao árduo trabalho de produzir um álbum melhor que os anteriores. Se conseguiram? Só ouvindo pra dizer. Mas na minha opinião? Sim!

2. Build Me Up, Break Me Down. Essa faixa segue o conceito de musicalidade comum com peso. As técnicas usadas (pelo menos no início) são normais pra qualquer músico com alguma experiência, e leva a um refrão meio grudento. A faixa só vai ficar interessante mesmo depois de duas execuções de refrão e estrofe, que é quando aparecem os solos, onde a banda mais chama a atenção. A preparação feita pelos instrumentos instiga seus sentidos e é saciada no momento em que guitarra, teclado e bateria fazem um trio espetacular, com um solo de poucos segundos que leva a música de volta para o refrão. Grandes emoções!
 
3. Lost Not Forgotten. 10min de música. Ok, já dá pra assustar. Mas para nossa sorte uma introdução de piano/teclado produz uma certa curiosidade, devido ao tom usado nas notas. Pode parecer brincadeira, mas mesmo num instrumento de teclas pode-se produzir emoções pulsantes, como euforia ou adrenalina. Parece exagero? Pois é isso que acontece nessa faixa. E pra auxiliar os riffs de guitarra que advém da introdução atestam minhas palavras. O que se passa a ouvir é um som galgado de pedaladas rítmicas, que culminam em palhetadas intensas, circundadas por um teclado virtuoso. Depois de um pequeno trecho de insanidade musical (característica chave da banda) vem uma junção de todos instrumentos num solo único e dançante, difícil de descrever. Rapidez e sagacidade se misturam à cordas e baquetas irrequietas, produzindo um som inexplicável. Pra não perder o "tom", John Petrucci emenda movimentos rápidos e secos no seu momento da música. Com isso chegamos nos 2min45, tendo ainda muito chão pela frente. Nos minutos seguintes o que se vê é uma música normal de rock. Existem momentos de velocidade bruta, combinados com peso cadenciado. Há também as "viradas" de outro mundo, entre cada parte da música. Um momento de destaque na faixa é no sexto minuto, quando o teclado duela contra o resto dos instrumentos, produzindo uma bela sonoridade. Aparece ao final um solo de Petrucci, mas sem tanto destaque assim, na minha opinião. Os últimos 25s de música são como o começo, relembrando o que passou de bom. Faixa pra ficar entre as preferidas. 
 
4. This is the Life. Levando em consideração o peso característico da banda, é uma daquelas faixas que passa batida. É a terceira menor faixa (!) do trabalho, com quase 7 minutos. Tem bons trabalhos do sintetizador de Rudess, e um jogo de vozes admirável. Porém mantém um tempo mais calmo, apesar do peso no som. O efeito produzido é interessante, mas não empolga muito. Faixa pra pular.
 
5. Bridges in the Sky. Faz valer a compra do CD original, ida no show e compra do DVD, a ser lançado nesse fim de ano. Começa com sons disléxicos, que chegam a afligir um pouco. Corais, vozes de povos primitivos, é difícil definir. Após quase 2min de balbúrdia, as guitarras vem como um raio para limpar a cena. O que se vê é uma banda de metal em ação. Ataques eletrizantes e mudanças sucintas de sonoridade, como eles bem sabem fazer. Tem um dos refrões mais interessantes que já ouvi nas músicas da banda. Após o meio há um momento de catarse para os músicos de plantão. O som de cordas produzido pelo teclado se encaixa perfeitamente ao que os outros componentes propõe. Os dedilhados, em sintonia com o teclado, fazem questão de entorpecer os ouvidos. São minutos em que você não quer mais ouvir outra coisa. O final vem a cavalo, rápido e intenso, sem pausas ou misericórdias. Faixa majestosa.
 
6. Outcry. De longe a principal faixa do disco. Não é rápida nem intensa, mas sim profunda. É a faixa mais técnica e interessante que já ouvi do Dream theater, estando entre meu top 10 de todos os tempos (coisa de adolescente, eu sei). Aos 2min há um belo breakdown, com o teclado fazendo pano de fundo. O breakdown não para após alguns segundos, como bandas atuais, mas dura meio minuto, tempo suficiente para finalizar a introdução da música. Entre elementos eletrônicos e voz conhecida, a música vai se desenvolvendo, definindo seu espaço. O refrão é belo, como esperado. Sua finalização ainda mais, não perdendo o nível da música um segundo sequer. Mas é aos 4min30 que a coisa fica séria. Os músicos parecem ter combinado antes de gravar que precisavam fazer algo sobrenatural. John Rudess aparece aniquilador com suas teclas, com todos instrumentos seguindo seus passos. Petrucci parece ter ficado com inveja, e galga os mesmos passos do tecladista-mor. O resultado é um paraíso de notas para os amantes de boa música. Não satisfeito, ele ainda faz um elencamento de notas como 'nunca' visto, provocando meses depois um sem-número de 'guitar-covers' pela internet afora. Daí a bola volta pro tecladista, que mantém o nível além-mundo da faixa, fazendo um solo espetacular no timbre de piano. Genialidade impossível de expressar aqui. Só ouvindo pra acreditar. É como um belo caos, um bálsamo para os ouvidos cansados e doentes de tanta coisa comum. Os 4min restantes trazem coisas maravilhosas, como um solo simples de guitarra, inúmeras variações, um duelo agonizante, momentos de teclado em destaque, e são finalizados por sons dispersos de bateria. Música extraterrestre, apenas.
 
7. Far From Heaven. Se a música anterior te levou as alturas, o nome dessa faixa justifica a descida de tim. É a faixa mais tranquila do álbum, com presença apenas das teclas. Acho que foi o meio encontrado para equilibrar a equação atingida na faixa anterior. Inteligente.
 
8. Braking All Illusions. Aparentemente se tornou a queridinha do CD, com os traços de sempre da banda, mas vestindo a camisa da atual formação. 12min de técnicas e peso. Fica difícil chamar a atenção à essa altura, visto que o restante do álbum já fez por si só, por assim dizer. Os solos e rallys são primorosos, com destaque para o baixo falante de John Myung. O solo dessa faixa é o mais interessante do álbum, e só percebi isso depois que meu irmão o aprendeu de tanto tocar em sua Les Paul da Tagima. Simples e profundo. 
 
9. Beneath the Surface. A chave de ouro vem numa corça, emergindo pela mata abundante. Quer dizer, é uma faixa leve. Não tem muito o que dizer, somente  que não chega a ser uma faixa ruim, até porque era necessário manter o nível do começo ao fim. Trabalho bem-feito.  

Essa resenha foi bem escrita: Sim Não