A Unlife é uma daquelas bandas que dá orgulho de ouvir, conhecer e compartilhar. Escuto o som deles desde a época da saudosa revista HornsUp. Lembro que na época pirei em como o som dos caras era inovador e bem desenvolvido, principalmente levando em conta que era nacional. O tempo passou, o grupo por mudanças importantes e uma evolução esperada, e hoje eles estão prestes a lançar seu segundo álbum full lenght, que tivemos acesso exclusivo dias antes do seu lançamento. Confira o que achamos dele nas próximas linhas.

Tenha em mente que você lerá uma resenha de um já fã da Unlife. Sendo assim, minhas comparações se darão com o terceiro trabalho da banda, de 2010, e outras referências diversas. Vale ressaltar a atual formação da banda, composta por Renato Ribeiro e Grace Oliveira nos vocais, Guilherme Costa, Luke Morales nas guitarras, Rafael Shimamoto nas baquetas e  Ricardo Pacheco no baixo.

Não é algo 100% aplicável, mas geralmente grupos de vertentes mais pesadas tendem a fazer um som mais cadenciado conforme vão evoluindo musicalmente. E não é diferente no caso da Unlife. A primeira música do novo disco, chamado Um Mundo Inteiro Em Um Homem Só, já mostra que a sonoridade da banda deu aquela crescida, como uma puberdade musical. O peso de outrora dá lugar a algo que ainda pulsa, mas de maneira mais homogênea, com um riff super marcante de início e um baixo bem destacado. A velocidade deu um lugar a um ritmo mais doce, porém mantendo aquele padrão da trupe. Quando a faixa entra no seu ato principal dá pra ver que a essência ainda está presente.

O vocal está de certo modo mais agressivo em No Céu. Eu preferia o do álbum antigo, mas é algo de gosto. A musicalidade continua crescente e bem construída durante a faixa, que não deixa a boa intensidade cair. Quando o vocal feminino faz sua primeira participação, percebe-se uma das faces da nova realidade da banda.

Vale abrir um parênteses para esse ponto. Grace Oliveira, atual vocalista, entrou substituindo Marina Kawahara, responsável pelos melódicos do Christian Democracy, segundo álbum do conjunto. E foi uma daquelas mudanças estruturais. Geralmente trocas de membros são coisas pontuais e pouco mudam na forma como o grupo cria, mas no caso da Unlife sinto que foi como se uma construção tivesse não apenas a substituição de um pilar, mas também a inserção de novos materiais. Além do timbre de voz ser outro, a dinâmica da cantora se encaixou como uma luva nessa nova fase da banda.

Voltando a falar da primeira música, ela alterna momentos mais melódicos com marteladas das boas, o que agrada os fãs das antigas. É engraçado esse equilíbrio que eles conseguem ter, alternando bem entre peso e melodias mais trabalhadas. O solo bem executado assina a música, que te dá boas-vindas à essa nova fase da banda.

A segunda música já é mais conhecida dos fãs mais fervorosos. isto porque a banda lançou essa faixa, Ninguém Usa Coroa há cerca de 7 meses atrás. É uma música bem diferente do que conhecemos anteriormente, a meu ver, já que tem uma pegada mais experimental, a despeito do metal hardcore que estamos acostumados. A batida dela é mais seca, e toda sua construção se dá nessa pegada. Apesar de não ser a vibe que mais curto, achei uma peça muito bem montada. O vocal feminino aparece com bastante ênfase e espaço, caracterizando a faixa, a meu ver. Acho que o que mais chama a atenção nessa faixa é sua meio que psicodelia e o compasso característico, que dá uma grudada na cabeça.

Se Não tem um daqueles riffs que parece música pra tocar no rádio, mas o tempo quebrado dela logo te tira essa impressão da cabeça. A bateria parece querer criar pernas durante a introdução, de tanta batida inicial. A quebra da melodia pós-introdução é assustadoramente penetrante, com guitarras melódicas habilmente harmonizadas com o vocal, dando aquele contraste à la Matt Murdock e Frank Castle na segunda temporada de Daredevil. E a tônica do equilíbrio se mantém com os vocais do Renato e Grace combinados. O interlúdio antes da segunda estrofe ajuda a perceber melhor a técnica do baterista. As mudanças de ritmo dessa faixa a deixam com uma face muito marcante. Até um chimbal mais aberto ganha mais vida. Do meio pro final a faixa pode cansar quem gosta de uma dinâmica constantemente ativa da banda, mas o primeiro ato equilibra por completo a música, deixando-a com uma impressão única sob quem a ouve.

Carregar vem como um rodo com pano de chão. Seca as lágrimas que a outra música deixou, e te empurra pra ver se você bate-cabeça de novo. Ela começa como quem não quer nada, tipo aqueles inícios de ensaio que não engrenam, pra depois de fazer ir pro meio da roda. Essa aqui vai pra você. 5 palavras que acabam ficando na cabeça mesmo quando você está não está pensando na música. Acho isso sacanagem de quem produz música, vale pontuar. O groove dessa música é algo que fica muito difícil não dar aquela balançada, no mínimo de cabeça ou pezinho. Aí quando você acha que já tá bom vem um daqueles momentos Unlife: barulho gratuito, cheio de descompassadas, com um breakdown único. A parada é tão magistral que devo ter ouvido mais esse trecho do que o álbum inteiro, dado o número de vezes que voltei pra ouvir de novo. Mesmo estando menos presente nesse álbum, são momentos assim que caracterizam primariamente a banda, pelo menos foi assim que fui conquistado. O legal é que quando a faixa chega no seu suposto fim, vem um interlúdio na pegada de música ambiente, que desemboca em um momento novamente pesado, mas diferente do começo da música, mantendo a característica de não fazer momentos iguais em suas música. Mais uma vez um solo, mas dessa vez daqueles bem gostosos. Nem parece que você tá ouvindo um grupo batizada no hardcore. O baixo, como se sentisse traído, faz as linhas finais da faixa, te deixando com um barulho de chuva pra refletir o que acabou de ouvir. Ufa! Melhor música pra mim.

A chuva continua e termina em Uma Cruz, que volta pro lado experimental do grupo, e relembra aos fãs de carteirinha que há cerca de um ano essa faixa foi liberada como single. Para deixar o negócio inquietante, uma introdução de mais de 1 minuto e meio se faz presente. Nessa música os berros lembram muito os do Mike Hranica. Acho que a letra é o que acaba te tocando mais em todos os elementos presentes nessa faixa. Poesia falada, em tese. É uma daquelas músicas para ouvir com o máximo de atenção possível. Apesar da melodia dessa música ser bem característica, acho que ela acaba servindo de fundo para a letra. Tanto que o silêncio na parte final da música, e falta de viradas ou solos virtuosos demonstra uma espécie de momento para refletir, chorar, se emocionar... enfim, aplicar a música na cabeça e colher insights disso. Sensacional!

O álbum termina com Aqui Embaixo, que parece manter a melancolia como na melodia anterior. E acho que foi realmente essa a ideia, porque a letra denota isso de certa forma. A mudança de tonalidades da faixa dá um contraste forte na mesma. O baixo tem arranjos bem perceptíveis e louváveis. Quando vem o refrão, sinto um sentimento: esperança. Sinto que a faixa transborda isto, de certa forma. E como se ela fizesse a gente pensar em aspectos da vida, que assim como a tristeza que certas melodias demonstram, há esperança de dias melhores, conforme é visualizado nas letras. O final da música meio que define essa ideia como seu mote, e coloca esperança até no ouvinte mais disperso, fechando com chave de ouro esse álbum que tem tudo para ser abraçado pra quem gosta de um barulho bem feito.

Terminando essa obra, creio que deu pra entender o que a banda quis passar como mensagem aos seus ouvintes. “No céu ninguém usa coroa se não carregar uma Cruz aqui embaixo."

Essa resenha foi bem escrita: Sim Não